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Rabia de Basra e Teresa de Ávila - as mulheres que venceram o medo de Deus

As religiões trabalham com o conceito do medo. O cristianismo, por sua vez, sabe ainda remontar essa categoria em seus fiéis e também sobre os infiéis. As igrejas estão abarrotadas de assustados pelas más notícias vindas das boas-novas. O medo de ser possuído, de ir para o inferno, de ficar pobre, de padecer enfermidade, de morrer por quem abandonou, etc, tem sido a força motriz, motivadora, bem como enrijecedora das instituições.
Judeu não crê nesse inferno cristão. Jesus, como judeu, falou de um inferno. Judeu não crê no céu cristão. Jesus, como judeu, falou sobre a promessa de novos céus e nova terra.
Todavia, essa relação entre um e outro não ataca "nossa fé", pois o cristão reconhece as palavras inferno como inferno e céu como céu - ainda que o inferno e o céu pareçam (ou sejam) outra coisa. "Outra coisa" porque no convite ao Evangelho (que deixou de ser convite e transformou-se em apelo - com um ar muito mais de ameaça: "creia, senão..."), muitos que "aceitam" passam a viver não a vida, mas o inferno desde já, pois se outrora eu era escravo do mal, agora sou algemado aos algures da eklesia.
A sedução que o medo arremessa aos seus é inquestionável. E os pregadores passam a utilizar desta ferramenta a fim de que seu rebanho ande encabrestado, junto, "sem se perder", agindo roboticamente ao modelo-padrão dito pela cartilha evangélica.
Defendo, ainda que "adoecido" por muitos medos, um relacionamento com um Deus de amor, de entrega incondicional. Até porque o amor de Deus lança fora todo o medo. Creio num inferno, num céu, mas morro de medo só de pensar que creio por causa deles, que faço o que faço para, por fim, ser recompensado e salvo das chamas.
Sem mais delongas, há duas mulheres que citarei. Em primeiro momento, trata-se de uma frase antológica da muçulmana Rabia al Adawiya al Qadsiyya, mais conhecida como Rabia de Basra.
“Se eu te adorar por medo do inferno, queima-me no inferno;
se eu te adorar pelo paraíso, exclua-me do paraíso;
mas se eu te adorar pelo que tu és, não esconda de mim a tua face!” (Rabia, 800 d.C.)
Rabia nasceu em família mui pobre. Não havia condições sequer de acender a lamparina dentro de casa. Reza a lenda que seu pai dizia: "Não vamos depender de ninguém, somente de Deus". Após a morte de seu pai, tornou-se escrava. Rabia introduziu o conceito real do amor divino e foi a primeira que soprou a ideia de que Deus deve ser amado por amor, não por medo, como sufis anteriores tinham feito.


O soneto abaixo - A Cristo Crucificado [atribuído a Teresa de Ávila] - engrossa a fileira das mulheres (oh, quão sublime sensibilidade para com essa divindade!) que percebiam Deus de forma a esvaziar qualquer templo:
Não me move, meu Deus, para querer-te
o céu que me hás um dia prometido,
e nem me move o inferno tão temido
para deixar por isso de ofender-te.


Tu me moves, Senhor, move-me o ver-te
cravado numa cruz e escarnecido;
move-me ver teu corpo tão ferido;
movem-me o insulto e a vida que perdeste.

Move-me teu amor, de tal maneira,
enfim, que sem céu ainda te amara
e a não haver inferno te temera.

Nada me tens que dar porque te queira.
E se o que ouso esperar não esperara,
o mesmo que te quero te quisera.
  Sem considerações finais.
 
NA GRAÇA
LELLIS

2 comentários

Raavy Ferraz disse...

Meus parabéns pelo poster, amigo!

OSÉAS FREITAS LEMOS disse...

Muito importante esse texto...Deus continue te abençoando

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