segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS

COPEIRO DO REI escreve...

"10Dois homens subiram ao templo, para orar; um, fariseu, e o outro, publicano.
11 O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: O Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano.
12 Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo.
13 O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: O Deus, tem misericórdia de mim, pecador!
14 Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado."
(Lucas 18:10-14)

Ainda hoje consigo observar, assim como na época de minha infância, crianças se autodenominando Super-heróis que acabam de conhecer pelo filme. Quando eu assistia a um filme de luta, procurava vestir-me como a personagem e sair pela rua como tal.
Assim acontece na vida. Olhamos para o lado e desejamos a vida do outro só porque o nosso lado que aparentemente está errado, no lado dele as coisas fluem. Enquanto eu não consigo enxergar beleza na minha família, o vizinho enxerga na dele... Portanto, grito: “Minha vida seria melhor se eu fosse fulano de tal ou tivesse a sorte de vida daquele ali”.

Nós perdemos nossa verdadeira identidade na queda de Adão. Ficamos sem nome, sem vida, sem a presença gloriosa de Deus. Perdemos. Ficamos como os que nem sonham mais. Deixamos de ser alguém. É por isso que existe a intenção de sermos o outro que parte da falsa idéia de que o outro é ele mesmo, sem nenhuma interrupção maligna do pecado e da separação. Por vezes inúmeras, chegamos a concluir que o outro é melhor do que eu e que a im-perfeição dele é mais atraente do que a miserabilidade da minha vida separada de tudo o que eu pensava ser.

Algumas manhãs nos revelam que a nossa vida biológica, espiritual e/ou psicológica não andam bem. Estão em contradição com aquilo que sempre pensei e busquei ser.
Daí, através deste texto e pela compreensão óbvia da queda do ser-humano, que sempre foi em Deus o que era pra ser, deixou de ser quem era e separado foi de sua verdadeira identidade nEle, observamos que só se pode ser Eu mesmo quando me aproximo dEle.
Dietrich Bonhoeffer escreveu: “Quanto mais pertos de Deus estamos, mais parecidos ficamos com nós mesmos”.
Qualquer pessoa que almejamos ser não pode suprir a necessidade daquele ser a quem planejou para que fosse nEle. Você não foi criado para ser outro, ainda que o teu desejo de ser e viver não esteja no teu corpo e mente. Você foi planejado, visualizado desde uma concepção informe no ventre de sua mãe.
Por conta disso, não existem saídas; não possuem mais vidas para se viver depois da morte; não há possibilidade de reencarnação para que, na esperança dela, você possa ser uma pessoa outra que não passasse pelas mesmas situações e que não tivesse as mesmas dores ou que não vivesse no meio dos mesmos familiares... Existe um grito no coração de cada um para ser alguém na vida. Existe um desejo enorme de se reparar como um ser encarnado que tem um nome, que tem um trabalho, que tem uma família, que tem uma sociedade ao seu redor... Todos precisam se ver no espelho psicológico e verem que ali existe alguma coisa que foi criada para algo específico e precisa fazer as coisas para as quais foi criada, e não satisfeito, faze-las de maneira única porque cada um é diferente do outro e não pode ter par de seres univitelinos no que se diz respeito a pessoalidade.

Você é único, mesmo que tenha um irmão gêmeo. Vocês são diferentes.

Agora, o que tem a ver tudo isso com a mensagem?
Existe um choque de identidades neste texto que nos é fascinante. O fariseu e o publicano. Pra aprendermos a ser quem somos, precisaremos observar quem eles são e o que fazem diante de Deus.

A primeira coisa que enxergo aqui é o seguinte: Não há como escondermos o que somos pra Deus. Deus nos enxerga do jeito que somos e não existem obstáculos que embacem a sua visão. Ele é Deus.
E se Ele sabe quem somos, sendo nosso Criador, aquEle que nos viu sem roupa e sem ossos na barriga de nossa mãe, precisamos urgentemente nos aproximar dEle porque essa separação desde Adão nos complicou a vida. Na verdade, não existe vida, não existimos sem Deus.
A sua crise de identidade não é por causa dos problemas, mas por causa da natureza distante que tivemos desde o ser caído. Perdemos a essência em Adão depois da queda, perdemos a vida, perdemos o gosto de ser quem somos, perdemos a natureza primária do ser-humano de Deus.
E a partir do momento que tenha a percepção lógica de que do Deus da vida e do ser não se esconde nada, não se omite nada e nem finge ser, começamos a entrar num processo de cura da identidade e passamos a ser quem Deus nos criou pra que fôssemos. A imagem e semelhança de Deus começam a ser restauradas em nós quando olhamos pra Deus mais de perto.

O vício de querer ser um religioso, pensando ser quem Deus sempre sonhou, não faz parte do plano de dEle. Às vezes queremos que Deus reze da nossa cartilha e que o mundo coma na nossa mão, ou seja, todos serão julgados de acordo com o meu entendimento de gente. Tudo e todo o que for diferente de mim está errado, vai pro inferno e não tem conserto.
A síndrome do fariseu, do religioso é justamente essa: de que todos se curvam ao modo dele ser e ver a vida. Sim, porque vemos a vida através da forma em nos enxergamos. Por conseguinte, nossas atitudes serão de acordo com nossa percepção de vida e de quem pensamos ser.
Outra coisa que podemos tirar do texto: O que continua olhando para si ainda não vive a sua própria vida.
Não existem respostas dentro de nós para dizermos que somos e porque somos. Não cabe dentro de nós a responsabilidade de tratarmos dos assuntos que não conhecemos. Os nossos conceitos são superficiais, quando não errôneos. A nossa visão da vida passa ser trivial, mecânica, moralista, religiosa, pré-conceituosa...
O fariseu olhava o mundo e as pessoas através de si mesmo. O julgamento partia de sua conduta. Se ele não rouba, os que roubam não são compatíveis a ele; se ele não adultera, os que adulteram diante dele são como que os próprios anjos caídos.
E a visão que temos do fariseu é assustadora, porque ele pensa que as ofertas compram os olhos de Deus enquanto seu moralismo religioso mata todo mundo do lado.
Assim, não me importa dar oferta se eu esmago todo mundo lá fora. É pra deixar a oferta no altar e resolver a vida. Deus espera. Até porque Deus quer ser encontrado na comunhão com o irmão.

É fatal quando olhamos o mundo a partir de nós mesmos. E isso não é tratado com descrente, com gente que não lê a Bíblia, mas com um fariseu. Um fariseu tem o Pentateuco na ponta da língua, aprende a ler através da Bíblia... Isso me dá abertura pra concretizar meu pensamento de que conhecimento Bíblico não me faz ser quem Deus quer que eu seja.
A não ser que a leitura me aproxime de Deus.

Só a proximidade de Deus e vivendo em Cristo eu consigo ser eu mesmo.
Sendo eu mesmo, até na tristeza eu sou alegre. Não tem margem de dúvidas. Minha capacidade de viver vem dEle.

A terceira análise do texto é: quando declaramos quem somos, do jeito que estamos, começamos a entender como o poder de Deus age para transformar.
Aquele publicano, sujeito pecador, largado pela sociedade judaica e religiosa da época, se achega no mesmo lugar que o fariseu e rasga o peito sem querer saber das conseqüências diante de Deus. Fala tudo. Fala como quem soubesse que aquEle que está ouvindo já o tinha visto nu e sem ossos na barriga da mãe. Fala como o filho pródigo que cai em si e se sente totalmente indigno de até aproximar-se. Fala e se aproxima.
Deus não resiste uma oração assim.
Enquanto um aponta pra si mesmo, o outro cai em si mesmo e se vê longe querendo estar perto e buscando ser alguém num lugar onde todo mundo pisa e diz que é pecador desgraçado e vai pro inferno mesmo.
O fariseu grita de forma onde pensa estar mais próximo de Deus do que tudo e todos. Porém, o seu modo de ser não tem nada a ver com a imagem e semelhança de Deus. Depois vem o publicano, no mesmo “ambiente” que o religioso, e declara que sua maneira de viver é digna de desejar apenas a misericórdia e propiciação pra sua alma. Ele expõe tudo o que é pra aquEle que sonda mentes e corações, e sai dali justificado.

O filho pródigo era a pessoa certa quando estava na casa de seu Pai. Quando decidiu sair, viver dissolutamente, sai de si, se perdeu, foi parar diante da comida dos porcos. Distante da casa do Pai não existe dinheiro, amizades, casa e mulheres suficientes que o façam ser você mesmo. Viver para si não é viver a sua vida, mas quando cai em si e retorna à casa do Pai, você passa a ser você mesmo: o filho que não merece, mas que tem a identidade de filho, que é reconhecido de longe.

Quem você deseja ser? Deus responde praqueles que estão com a visão alterada: “Seja você mesmo estando em mim. Longe de Mim, quererá viver em outra pele porque longe de Mim a vida não existe, o gosto some, a alma enternecida fica anêmica, e a fome de ser alguém com nome e identidade definidas não passará de um sonho”.
Longe de Deus a gente sucumbe, a gente não tem vida.
Cristo veio para nos religar com Deus. Ele não veio para nos fazer seguidores do cristianismo, mas para andarmos nEle, sermos alguém nEle, vivermos para Ele, e, sobretudo, nos identificarmos nEle porque o Filho se identifica com o Pai. A natureza humana é assim. A espiritual também.
Aceite-se em Deus. Você não terá uma vida vetada, pela metade, inutilizada pela religião, mas terá a vida verdadeira, aquela que Deus pensou desde a fundação do mundo só pra você.
Viva em Deus. Não temos outra vida em Deus, mas uma vida nova porque é novo nascimento. A queda em Cristo é anulada porque Ele traz de volta a natureza de ser quem se deve ser nEle. O Pai anseia que sejamos dEle não simplesmente para nos arraigar numa membresia de igreja institucionalizada, mas para sermos a igreja levantada para nos encontrarmos com aquEle que nos fez para existirmos nEle.

Pra terminar. Sua única saída de experimentar quem você realmente é, é se aproximar de Deus da forma em se encontra: digno de clamar misericórdia e propiciação. Quando houver essa proximidade sincera, Ele começará a transformação. Você será você mesmo.

Cristo não deixou de ser quem sempre foi, apenas se esvaziou de Si mesmo pra nos dar garantia de sermos alguma coisa nEle. Ele desceu da cruz e venceu a morte pra sermos eternos com Ele. Só seremos pessoas felizes e satisfeitas quando estivermos vivendo nEle. Arraigados. Edificados. Confirmados na fé. Crescendo em ações de graças. Só compreenderemos o sentido do nosso viver se estivermos próximos de Deus.
Achegai-vos a Deus e Ele se achegará a vós.

NA GRAÇA, QUE NOS REMETE AO INÍCIO DE TUDO

LELLIS

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